PF deflagra operação contra desvio de verbas
 ( FOTO: CID BARBOSA )
As ações ocorreram no Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Na capital cearense, os agentes da Polícia Federal estiveram num edifício residencial, no Cocó, e em outro prédio comercial, no Joaquim Távora.
A Polícia Federal (PF) e a Controladoria Geral da União (CGU) deflagraram, ontem, a 'Operação Remenda'. As ações ocorreram simultaneamente no Ceará, Distrito Federal, Rio de Janeiro e em Pernambuco, onde se originaram as investigações. O objetivo é desarticular uma quadrilha que desviava recursos públicos do Ministério da Agricultura e do Turismo, através de uma Organização não Governamental (ONG) de fachada. Na capital cearense, dois locais foram visitados por agentes da Polícia Federal no começo da manhã de ontem. O primeiro deles foi um edifício residencial no bairro Cocó, de onde foram levados apenas documentos, segundo os policiais federais. Enquanto isso, outros agentes também estiveram em um prédio comercial, localizado na Avenida Barão de Studart, no bairro Joaquim Távora. Ao todo, de acordo com informações cedidas em coletiva, ocorrida na sede da PF em Recife, foram expedidos pela Justiça Federal 13 mandados de busca e apreensão, sete de prisão temporária e um de prisão preventiva, nos quatro estados envolvidos na operação.
 Com um prejuízo para os cofres públicos estimado em R$ 4 milhões, o esquema de desvio envolveria diretores de entidades, ex-políticos e assessores. Cerca de 90 pessoas, incluindo agentes da PF e auditores da CGU, estão envolvidos nas investigações da operação 'Remenda'. A Controladoria Geral da União explicou que, apesar de deflagrada neste mês, as investigações sobre o caso já se iniciaram há três anos.

O motivo para as suspeitas foi uma fiscalização que apurou irregularidades no processo de contratação da ONG, além da execução dos convênios. Segundo o órgão, são investigados crimes de formação de quadrilha; peculato ou apropriação indébita de recursos públicos; e lavagem de dinheiro. A Polícia também cumpre medidas para garantir o ressarcimento da quantia desviada. Para isso, são cumpridas, também, mandados de intimação imediata e medidas cautelares de sequestro de bens, o que poderia gerar um retorno de aproximadamente R$ 700 mil.

Segundo a Polícia Federal, as emendas parlamentares custeavam convênios firmados entre 2010 e 2011 pela ONG Instituto Brasil de Desenvolvimento Institucional (Ibdi) e os ministérios. Pelo Ministério do Turismo foram repassados R$ 3 milhões para a realização de cinco vídeos de promoção do turismo em municípios de Pernambuco.

Já com o Ministério da Agricultura, os seis contratos eram para a criação de planos de negócios para arranjos produtivos locais de fruticultores em seis estados, no valor de R$ 1,2 milhão. O Ibdi subcontratava outras empresas para a realização da ação prevista no contrato.

Fingir

Ao fiscalizar outras empresas, a CGU encontrou instituições que nunca existiram ou que tinham dois ou três funcionários, apenas para "fingir que funcionavam. Uma delas, a Rede Vida, tem os mesmos funcionários do Ibdi, ou seja, o repasse de dinheiro era feito deles para eles mesmos", disse o superintendente da Polícia Federal em Pernambuco, Marcello Diniz Cordeiro.

Em uma segunda fase da fiscalização da CGU, ao analisar convênios firmados com o Ministério do Turismo, constatou-se que a sede do Ibdi já não estava em funcionamento. "A organização desapareceu", explica Victor de Souza Leão, chefe da CGU, no Estado de Pernambuco.

A suspeita dos órgãos envolvidos na operação é que o ex-deputado de Pernambuco Charles Lucena seja o intermediador do desvio. Segundo a Polícia Federal, existem provas de que o dinheiro acabou na conta de ex-assessores de Lucena.

O advogado Francisco de Lacerda, que integra a defesa do ex-deputado Charles Lucena, afirmou que o investigado é inocente. "Ele fez os devidos esclarecimentos, deixou clara a sua inocência e aguardamos com serenidade que seja revista essa prisão temporária de cinco dias. A única participação dele seria na aprovação das emendas e nada mais, beneficiando suas bases".

A defesa de Lucena também negou ligação com o Ibdi. O Instituto tem uma página na internet onde constam os contatos telefônicos. A ligação dá sempre ocupada para o telefone divulgado.

De acordo com a CGU e a PF, o nome da operação faz referência aos desvios realizados por meio de emendas parlamentares. O trocadilho diz respeito ao fato de "remendar um problema com outra emenda".

Fonte:Diário do Nordeste